Capítulo Um - A Sombra do Filho do Rock”

 

O cantor Heitor Lorenzo era um veterano do rock.
Não um simples músico de palco… mas um homem que atravessara décadas carregando nas mãos as marcas invisíveis da glória — e da queda.

Nos anos setenta, lançara um disco chamado “Viagem a Marte”.
Dizia — com uma mistura de orgulho e ferida aberta — que a crítica o considerara o Dark Side of the Moon português. Um trabalho ousado. Psicadélico. Intenso. Um álbum que, segundo ele, mudara o rumo do rock nacional.

Mas naquela manhã, no camarote da SIC, nada disso parecia importar.

Heitor estava diante do espelho.
O reflexo devolvia-lhe um rosto envelhecido, sulcado pelo tempo… e por algo mais profundo: culpa.

Ele sempre gostara mais do piano do que da guitarra elétrica.
O piano era confissão. A guitarra era palco.
E talvez fosse essa escolha íntima — esse amor silencioso pelas teclas — que o assombrava todas as noites.

Havia uma culpa que o fazia acordar suado.
Uma culpa que o fazia gritar no escuro.

— Eu não tive culpa… — murmurou para si próprio, olhando o espelho como se este fosse juiz.

Agora, finalmente, fora convidado para falar.
Para “repor a verdade”.

Entrou no programa de Júlia Pinheiro com passos firmes, mas o olhar fechado. O estúdio estava iluminado, confortável, acolhedor. Um cenário perfeito para memórias… ou para confrontos.

— Bom dia, Heitor Lorenzo. — disse Júlia, com a cordialidade habitual.

— Bom dia. — respondeu ele, seco. Sem sorriso. — Eu vim aqui para repor a verdade que me assombra há quarenta e cinco anos.

Houve um leve silêncio no estúdio. A tensão pairou como uma nota suspensa.

— Muito bem… quer contar então?

Heitor sentou-se ao piano do programa. Passou os dedos pelas teclas como quem reencontra um velho amigo — ou uma velha arma.

Tocou uma melodia.

Júlia sorriu imediatamente.

— Sim… é “Todos os Dias Te Amando”, do Hélder Coelho.

O nome ecoou no estúdio.

Heitor não reagiu. Apenas mudou de tonalidade. Tocou outra melodia — mais antiga, mais densa.

— E esta? — perguntou.

— Não sei… é sua?

Ele ergueu os olhos lentamente.

— É “Nevou em Gottemberg”. Muito ouvida nos anos sessenta. Nos palcos portugueses. O título era meu… até, em dois mil e vinte e três, aparecer aquele jovem… o Hélder Coelho.

O nome saiu-lhe como um espinho.

— Que título? — perguntou Júlia.

— O Filho do Rock Português.

Júlia franziu ligeiramente o sobrolho.

— Não me lembro de ser seu. O Rui Veloso deu esse título ao Hélder Coelho… por causa daquele disco… “O Gato Preto”. Foi considerado o Dark Side of the Moon português.

A comparação foi um golpe invisível.

— Não me lembre disso. — Murmurou Heitor, quase entre dentes.

A sua voz tornou-se mais intensa.

— Eu era o melhor roqueiro. As minhas músicas enchiam palcos. As pessoas gritavam o meu nome. Rui Veloso era o Pai do Rock Português… mas eu… eu era o Filho do Rock Português.

Fez-se um silêncio.

Então ele respirou fundo.

— Até eu ir a Bragança.

A memória puxava-o para trás no tempo.

Universidade. Uma sala antiga. Paredes que ecoavam ensaios estudantis. A tuna “Querubins 1976” tinha tocado ali.

Heitor estava de visita. Observador. Seguro de si.

Foi então que viu um grupo de jovens a correr pelo corredor. Riam. Empurravam-se.

E no meio deles… um jovem robusto. Bonito. Cabelo encaracolado. Barba à mosqueteiro. Óculos redondos. Vestido de negro, como estudante tradicional.

Brincava. Ria. Irritava.

Heitor olhou-o com desprezo.

— Insolente… — murmurou na altura.

Mas horas depois… ouviu algo.

Uma voz.

Uma voz que atravessava o corredor como um sopro divino.

Era o fado do estudante.

Uma voz poderosa.
Quase celestial.
Como se anjos tivessem descido às arcadas da universidade.

Heitor abriu a porta da sala da tuna.

E lá estava ele.

O mesmo jovem insolente.

A cantar.

Nas mãos, uma guitarra antiga. Alguém sussurrou que pertencera ao avô — cantor nas romarias de São Bartolomeu, na Foz do Douro.

Mas nada disso importava.

O que importava era a voz.

Melhor que a sua.
Mais viva.
Mais crua.
Mais verdadeira.

Heitor sentiu o chão fugir-lhe dos pés.

Como podia Deus conceder tal dom a um fedelho?
A um rapaz que corria pelos corredores a provocar estudantes?

Ele, Heitor Lorenzo — uma lenda — estava a ser ultrapassado.

Recuperou a imagem na memória como uma punhalada.

Naquele instante… deixou de acreditar em Deus.

Porque se Deus existia… tinha escolhido outro.

No estúdio, Júlia interrompeu suavemente:

— Quer beber um copo de água?

Heitor piscou os olhos. Voltou ao presente. À luz do estúdio. À câmara.

— Vamos começar pelo princípio. — disse, respirando fundo.

E então a sua voz mudou. Tornou-se mais baixa. Mais íntima.

— Eu comecei a cantar nos anos sessenta. O meu pai era músico. Foi com ele que aprendi guitarra. Treinei. Sofri. Cresci. Mas… o que eu sempre gostei… foi do piano.

As mãos pousaram nas teclas.

Uma nota soou.

Depois outra.

— E é com esta paixão… que começa a minha história.

A música encheu o estúdio.

E a narrativa, finalmente, estava pronta para revelar o que realmente acontecera entre um veterano do rock… e o jovem que o mundo decidiu chamar de Filho do rock português.




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