O quarto capitulo do meu primeiro conto de Ficção cientifica "O linguística"
Capítulo quatro
Zenão Ludovico sentou-se ao computador, a luz do ecrã iluminando o seu
rosto enrugado, onde a barba rala tremia sob os dedos inquietos. O Dr. Bernardo
Moniz enviara-lhe ficheiros secretos sobre a viajante do tempo que ele, agora
com 50 anos, teria de resgatar no século XIII. Abriu o documento, e o nome
surgiu em letras sóbrias:
Nome: Beatriz Sofia Barbosa
Idade: 25 anos
Nacionalidade: Portuguesa
Zenão fixou a fotografia anexa.
Beatriz, com o uniforme da NASA, exibia um sorriso contagiante, os olhos
brilhando de felicidade, como se estivesse a um passo de realizar um sonho. E
realizara. Fora uma das primeiras humanas a visitar Avelon, o planeta dos
Aslan, mas agora estava presa num tempo que não lhe pertencia. Zenão passou ao
currículo. Beatriz estudara nas melhores universidades do mundo, além de
Aveiro, e dominava várias línguas, algumas extintas. Ele acenou com a cabeça,
impressionado, ao ler que ela falava aramaico, a língua de Jesus Cristo.
Uma memória fugaz atravessou-lhe
a mente. Zenão, ainda criança, na catequese de domingo, levantara a mão com uma
pergunta que incomodara a catequista:
— Porque não se fala aramaico nas
igrejas, se era a língua de Jesus, e não o latim?
— Porque… Bem, Zenão… — A
catequista hesitara, sem resposta, mudando de assunto. — Rita, a tua pergunta?
— A professora não respondeu à
minha! — insistira Zenão, firme, o que lhe valera um castigo por
“desobediência”. Sozinho, murmurara: — Estúpida catequista, estúpido Deus.
Devia estar em casa a ver O Justiceiro.
Voltou ao presente, sorrindo com
a rebeldia infantil. Em 2004, ao ver A Paixão de Cristo, aprendera aramaico
apenas ouvindo o filme, sem legendas, decifrando as palavras como se fossem um
puzzle. Era assim que funcionava a sua mente: línguas, sons, significados, tudo
se entrelaçava como música.
Coçou o ombro, sentindo o peso da
idade nas dores que lhe percorriam as costas e as pernas. Olhou para o frasco
de comprimidos noturnos — ou seriam matinais? — e decidiu ignorá-lo. Lá fora, o
dia começava a nascer, tingindo o céu de tons suaves. Abriu outro ficheiro, um
áudio intitulado Diário de Viajante do Tempo, 1303. A voz de Beatriz
soou, clara mas tensa:
— Fui encontrada por um cavaleiro
do rei D. Dinis, que se ajoelhou diante de mim, desembainhando a espada, e me
chamou de santa.
Zenão ouviu, absorto. Beatriz
relatava como o cavaleiro, Frederico Vilaça, cruzado a caminho de Jerusalém, a
vira “cair do céu” inconsciente ao chegar a Coimbra. Ele acreditava que ela era
um anjo ou uma santa. Zenão pensou em O Dia do Juízo Final, de Connie Willis,
onde a protagonista, também caída do céu, fora tomada por santa numa aldeia
medieval. Bernardo Moniz tinha razão: a escritora parecia prever o futuro.
Ligou novamente o áudio. Beatriz continuava:
— Ele jurou proteger-me em nome da
Rainha Santa, que está em Coimbra por esta altura. Fui levada para uma aldeia,
onde o povo me olha com desconfiança. Agora, estou num convento de Clarissas.
Fazem-me perguntas sobre o Nosso Senhor, desde que Frederico lhes contou como
me encontrou. Dizem que vou falar com a Rainha Santa Isabel e o Rei D. Dinis.
Estou com medo, mas alistei-me para isto. Fui treinada para isto. Vou desligar,
uma madre ouviu-me falar. Adeus… tragam ajuda, por favor.
O áudio terminou abruptamente.
Zenão abriu o browser e pesquisou “Rei D. Dinis Rainha Santa Isabel”. A data
confirmava-se: cerca de 1300. Coçou a barba, um hábito que traía o nervosismo.
Ele sabia português medieval, dominava-o como poucos. Era o homem certo para a
missão, como se o destino o tivesse escolhido. Mas o peso dessa escolha
inquietava-o.
Desligou o portátil,
fechando-o com um clique suave. Caminhou até ao quarto, onde a esposa dormia, e
deitou-se ao seu lado. Ela aceitou o abraço, e Zenão, aninhado nos seus braços,
tentou adormecer. Mas o sono não vinha. Os olhos fixavam o teto, a mente
perdida entre o passado e um futuro incerto. Quem era Beatriz, realmente? E o
que o aguardava no século XIII? O eco da voz dela, pedindo ajuda, misturava-se
com a memória dos Aslan e da música que abrira as portas de Avelon. Zenão, o
linguista, o homem que decifrava o impossível, carregava um mistério que nem
ele próprio compreendia. E, na escuridão, o passado chamava-o, como se soubesse
que ele estava destinado a responder.


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