—
Cheguei, mãe! — anunciou Zenão Ludovico ao entrar em casa, como fazia desde
sempre, num ritual que parecia ancorar o presente ao passado. — Trouxe os seus
netos.
A mãe, Dona Amélia, saiu da cozinha, limpando as mãos ao avental, o
rosto marcado por anos de carinho e repreensões. Beijou Heitor, Humberto,
entregando a cada um uma nota com um sorriso cúmplice, antes de fixar os olhos
em Zenão. Como sempre, a crítica veio em tom familiar:
— Desde que chegaste aos 50 que te desleixaste. Quando cortas essa barba
e esse cabelo? — disse, franzindo o sobrolho. — O teu pai, se fosse vivo, nunca
te deixava andar assim.
Deu-lhe um beijo na face e um abraço apertado, mas logo depois, baixando
a voz para que os netos não ouvissem, perguntou com aquele instinto que só as
mães têm:
—
O que se passa, Zenão? Sei que tens algo para me contar, não é?
Ele hesitou, coçando a barba rala, antes de responder num murmúrio:
— Vou fazer uma viagem no tempo. Para o século XIII. Para salvar uma
viajante que ficou presa lá.
Dona Amélia arregalou os olhos, a mão ainda no avental.
—
Então é verdade? Aquele maluco do Bernardo Moniz, que falava de buracos no sei
lá o quê…
— Buraco de minhoca, mãe — corrigiu Zenão, com um meio-sorriso.
—
Sim, isso. O teu pai dizia que morreria antes de verem essa loucura realizada.
E estava certo — disse ela, a voz tremendo de emoção.
Depois, num tom mais firme:
— Porquê tu, Zenão?
— Porque sou linguista. Sei português medieval. Sou a única esperança
daquela jovem.
A
mãe abanou a cabeça, os olhos marejados.
—
Chamam-te sempre, e tu resolves tudo. Mas quando não puderes mais ajudar, o que
vai esse governo fazer? — perguntou, a tristeza misturada com orgulho.
— É uma jovem da idade da Connie, mãe. Não podia recusar.
—
Avó! — exclamou Connie, entrando pela porta com uma careta. — Fui só estacionar
o carro.
—
Estou a ver, minha querida. Não te dão comida na América? — brincou Dona
Amélia, abraçando a neta com força.
—
Minha querida avó — respondeu Connie, retribuindo o abraço.
Zenão seguiu para o seu antigo quarto, que a mãe insistia em manter como
ele o deixara antes de casar. Entrar ali era como atravessar um portal para a
adolescência, para os anos de sonhos e rebeldia. Sobre a cómoda, uma fotografia
emoldurada: ele, o pai e os irmãos nas montanhas da Suíça, um destino que o pai
adorava nas viagens de carro para Itália. “A Suíça é mágica”, dizia ele. Zenão
pegou na moldura, os dedos traçando o contorno da imagem. Era uma era de
fotografias únicas, sem repetições, autênticas. Pousou-a com cuidado e saiu.
Na cozinha, Dona Amélia serviu o almoço.
—
Não sabia se vinham, por isso fiz batatas cozidas fritas na sertã com ovo
frito. Espero que gostem — disse, com um sorriso.
—
Adoro essa comida! — exclamou Zenão, sentando-se à mesa.
— Era um prato do teu pai. Uma vez, sem nada para cozinhar, ele disse
que ia “por as batatas na sertã” e inventou isto — contou ela, rindo.
Por instantes, enquanto comia com a mãe e os filhos, o peso do futuro e
do passado dissolveu-se. Era só ele, a família, o aroma das batatas e as
memórias do pai. Mas a tranquilidade não durou. Ao sair da casa, o telemóvel
tocou. Era um número privado. Zenão atendeu, e a voz grave do Dr. Bernardo
Moniz soou, carregada de urgência:
— Está tudo pronto, Zenão. Prepare-se.
Ele estremeceu, coçando a barba, um tique que traía o nervosismo. Olhou
para os filhos, que brincavam com a avó à porta da casa, as risadas ecoando na
tarde fria. Tudo estava prestes a começar. Que mistérios o aguardavam no século
XIII? E que preço pagaria por responder, mais uma vez, ao chamamento do
destino? Zenão, o linguista que decifrara a música dos Aslan, carregava um
segredo que nem ele compreendia. Enquanto as luzes natalícias do Porto piscavam
ao longe, ele sentiu o olhar do passado, como se o próprio tempo o observasse.
“Que Deus te proteja”, murmurou para si mesmo, ecoando as preces da mãe.
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