Quinto capitulo do meu primeiro conto de Ficção cientifica "O linguística"

 
               — Cheguei, mãe! — anunciou Zenão Ludovico ao entrar em casa, como fazia desde sempre, num ritual que parecia ancorar o presente ao passado. — Trouxe os seus netos.
                A mãe, Dona Amélia, saiu da cozinha, limpando as mãos ao avental, o rosto marcado por anos de carinho e repreensões. Beijou Heitor, Humberto, entregando a cada um uma nota com um sorriso cúmplice, antes de fixar os olhos em Zenão. Como sempre, a crítica veio em tom familiar:
                — Desde que chegaste aos 50 que te desleixaste. Quando cortas essa barba e esse cabelo? — disse, franzindo o sobrolho. — O teu pai, se fosse vivo, nunca te deixava andar assim.
                 Deu-lhe um beijo na face e um abraço apertado, mas logo depois, baixando a voz para que os netos não ouvissem, perguntou com aquele instinto que só as mães têm:
               — O que se passa, Zenão? Sei que tens algo para me contar, não é?
                 Ele hesitou, coçando a barba rala, antes de responder num murmúrio:
                 — Vou fazer uma viagem no tempo. Para o século XIII. Para salvar uma viajante que ficou presa lá.
               Dona Amélia arregalou os olhos, a mão ainda no avental.
              — Então é verdade? Aquele maluco do Bernardo Moniz, que falava de buracos no sei lá o quê…
                  — Buraco de minhoca, mãe — corrigiu Zenão, com um meio-sorriso.
               — Sim, isso. O teu pai dizia que morreria antes de verem essa loucura realizada. E estava certo — disse ela, a voz tremendo de emoção.
               Depois, num tom mais firme:
                — Porquê tu, Zenão?
                    — Porque sou linguista. Sei português medieval. Sou a única esperança daquela jovem.
               A mãe abanou a cabeça, os olhos marejados.
              — Chamam-te sempre, e tu resolves tudo. Mas quando não puderes mais ajudar, o que vai esse governo fazer? — perguntou, a tristeza misturada com orgulho.
                 — É uma jovem da idade da Connie, mãe. Não podia recusar.
               — Avó! — exclamou Connie, entrando pela porta com uma careta. — Fui só estacionar o carro.
             — Estou a ver, minha querida. Não te dão comida na América? — brincou Dona Amélia, abraçando a neta com força.
              — Minha querida avó — respondeu Connie, retribuindo o abraço.
            Zenão seguiu para o seu antigo quarto, que a mãe insistia em manter como ele o deixara antes de casar. Entrar ali era como atravessar um portal para a adolescência, para os anos de sonhos e rebeldia. Sobre a cómoda, uma fotografia emoldurada: ele, o pai e os irmãos nas montanhas da Suíça, um destino que o pai adorava nas viagens de carro para Itália. “A Suíça é mágica”, dizia ele. Zenão pegou na moldura, os dedos traçando o contorno da imagem. Era uma era de fotografias únicas, sem repetições, autênticas. Pousou-a com cuidado e saiu.
               Na cozinha, Dona Amélia serviu o almoço.
             — Não sabia se vinham, por isso fiz batatas cozidas fritas na sertã com ovo frito. Espero que gostem — disse, com um sorriso.
            — Adoro essa comida! — exclamou Zenão, sentando-se à mesa.
                 — Era um prato do teu pai. Uma vez, sem nada para cozinhar, ele disse que ia “por as batatas na sertã” e inventou isto — contou ela, rindo.
                Por instantes, enquanto comia com a mãe e os filhos, o peso do futuro e do passado dissolveu-se. Era só ele, a família, o aroma das batatas e as memórias do pai. Mas a tranquilidade não durou. Ao sair da casa, o telemóvel tocou. Era um número privado. Zenão atendeu, e a voz grave do Dr. Bernardo Moniz soou, carregada de urgência:
                — Está tudo pronto, Zenão. Prepare-se.
                Ele estremeceu, coçando a barba, um tique que traía o nervosismo. Olhou para os filhos, que brincavam com a avó à porta da casa, as risadas ecoando na tarde fria. Tudo estava prestes a começar. Que mistérios o aguardavam no século XIII? E que preço pagaria por responder, mais uma vez, ao chamamento do destino? Zenão, o linguista que decifrara a música dos Aslan, carregava um segredo que nem ele compreendia. Enquanto as luzes natalícias do Porto piscavam ao longe, ele sentiu o olhar do passado, como se o próprio tempo o observasse. “Que Deus te proteja”, murmurou para si mesmo, ecoando as preces da mãe.
 

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