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O segundo capitulo do meu primeiro conto de Ficção cientifica "O linguística"
O carro de Zenão Ludovico serpenteava pelas ruas do
Porto, o rádio a tocar Forever After All de Luke Combs. Ele cantava a letra de
cor, com uma paixão que fazia a barba rala tremer e os óculos redondos quase
saltarem do nariz. Connie, sentada ao lado, observava-o com um sorriso. O pai
de coração, anafado, com o cabelo longo e desgrenhado, parecia perdido na
música, movendo as mãos no ar como se tocasse uma guitarra imaginária durante o
solo. Quando a canção terminou, Zenão desligou o rádio, coçou a barba e, com um
brilho malicioso nos olhos, perguntou:
—
Então, tens visto o Jack Black por onde vives?
Connie riu, habituada à pergunta que ele repetia desde as videochamadas.
—
Pai, ele vive em Los Angeles, eu em Nova Iorque! E ando ocupada a estudar para
a conferência na Universidade de Aveiro sobre viagens no tempo.
— Eu
sei — disse Zenão, fazendo uma careta teatral. — A minha menina já é crescida.
—
Prometo que, se vir o Jack Black, faço logo uma videochamada — respondeu ela,
rindo.
Zenão era um fã incondicional de Jack Black. Conseguia identificá-lo em
papéis obscuros, como naquela vez em que pausara O Demolidor, um filme antigo
com Sylvester Stallone, no canal Hollywood. Apontara para um adolescente
desajeitado no fundo da cena, exclamando:
—
Olha, é ele! Jack Black, figurante!
Connie, que estudava na sala, ficara boquiaberta. — Como é que
consegues?!
—
Coisas de fã — respondera Zenão, com um sorriso enigmático.
Enquanto guiava, Connie mencionou que, na universidade onde trabalhava,
ninguém acreditava que ela era filha adotiva do “herói da humanidade”. Zenão
franziu o sobrolho, a expressão endurecendo.
— Eu,
herói? Não sou herói nenhum. Fiz o que me pediram e tive sorte que os Aslan
contactassem comigo.
— O
que viste dentro daquele objeto, pai? — perguntou Connie, a curiosidade a
queimar.Zenão hesitou, o olhar perdido por um instante, como se revisse
memórias que não partilhava.
—
Avelon. Os Aslan são os seus habitantes. Comunicam por música. Não qualquer
música, mas música clássica.
—
Fala um pouco em aslandês — pediu ela, os olhos brilhando.
Zenão escolheu as palavras com cuidado, a voz grave e melodiosa:
—
Míturio Délurion Hidraton.
— O
que significa? — perguntou Connie, inclinando-se para ele.
— Tu
és muito bonita — disse ele, com um sorriso terno. Ela riu e deu-lhe um beijo
na face.
Na
memória de Zenão, aquele momento em 2026 regressava como um sonho. Dentro da
nave, vira algo que não explicava: uma figura, talvez feminina para olhos
terráqueos, que falava numa melodia hipnótica. Ele escutara, estudara cada som,
até arriscar:
—
Miniapo Zenão Ludovico.
—
Aloi, Zenão — respondera a figura.— Aloi detoito miniapo? — perguntara ele,
tentando imitar a cadência.
—
Miniapo Gladial.
O som de um despertador arrancou Zenão do devaneio. Estava na cama, o
dia a nascer. Adorava aqueles momentos entre o sono e a vigília, quando o mundo
parecia suspenso. A casa estava silenciosa, mas logo Connie entrou, com um “bom
dia” caloroso.
—
Queres pequeno-almoço? — perguntou ela.
—
Claro, depois do banho e de me vestir — respondeu Zenão, levantando-se.
—
Trouxe-te uma coisa — disse Connie, tirando uma t-shirt de um saco. — Acho que
é o teu tamanho. Quando a vi, pensei logo em ti.
Zenão desdobrou a t-shirt e os olhos brilharam. Era da Tenacious D, a
banda de Jack Black. Fez uma imitação exagerada do cantor, arrancando risos à
filha.
— Uau,
que fixe! Sempre quis uma destas!
—
Ainda bem que gostaste — disse Connie, sorrindo.
Zenão tinha um gosto peculiar por t-shirts com estampas caricatas, como
se quisesse que o mundo reparasse nelas. Vestiu a nova aquisição por baixo de uma
camisola a combinar, pôs o casaco e olhou para Connie.
—
Vamos?
—
Sim, pai.
No
café habitual, entre o aroma de café e torradas, conversavam descontraidamente
quando o telemóvel de Zenão tocou. Era um número privado. A última vez que
recebera uma chamada assim, os serviços secretos portugueses levaram-no até à
esfera no Douro. Engoliu em seco e atendeu.
—
Zenão Ludovico? — perguntou uma voz grave.
— Sim
— respondeu, a voz a falhar.
—
Sou o Dr. Bernardo Moniz, diretor do projeto de viagens no tempo na
Universidade de Aveiro. Podemos falar? Precisamos da sua ajuda. Urgente.
—
Claro. Levo comigo a Dra. Connie, que trabalha no vosso departamento.
— Perfeito.
Pode ser hoje?
—
Sim, claro.
—
Ótimo.
Desligou, o coração acelerado. Connie, que ouvira parte da conversa,
perguntou:
—
Quem era, pai?
—
Do teu departamento. Temos de ir a Aveiro hoje.
—
Para quê? — insistiu ela, franzindo o sobrolho.
— Não
sei. Contam-nos quando lá chegarmos —
disse Zenão, a voz tingida de preocupação.
Porque é que o chamavam sempre quando algo dava errado? A última notícia
do projeto de viagens no tempo era que uma profissional da NASA fora enviada ao
passado, para uma era mantida em segredo. Zenão, com o seu passado misterioso e
a ligação aos Aslan, parecia destinado a ser o herói que nunca quisera
ser.
Enquanto saíam do café, as luzes natalícias da cidade piscavam, como se
guardassem segredos tão profundos quanto os que ele carregava no peito. O que
queriam dele agora? E que mistérios o aguardavam em Aveiro?
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