O meu primeiro conto de Ficção cientifica "O linguística"

 

                                          Capítulo um

 

         Era meados de novembro, e as montras da florista por onde Zenão Ludovico passava exalavam já o doce perfume da época natalícia. Ele parou, os olhos brilhando como os de uma criança, a admirar as luzes cintilantes, os enfeites reluzentes e as coroas de azevinho que adornavam a vitrine. O Natal sempre o encantara, desde pequeno, e agora, aos 50 anos, pouco mudara. Zenão, anafado, com uma barba farta e cabelo longo, desgrenhado, usava óculos redondos que lhe valiam comparações com Harry Potter.

           Coçou a barba, sorrindo, perdido em pensamentos. O Natal estava a chegar, a sua estação preferida, cheia de calor, memórias e mistérios que pareciam pairar à sua volta, como se ele próprio fosse uma figura enigmática.

              Zenão era um homem de contrastes. Para o mundo, era o linguista que, aos 30 anos, se tornara uma lenda improvável. Em 2026, quando um objeto estranho – uma esfera negra flutuando sobre o rio Douro, no Porto – surgira sem explicação, fora ele, Zenão Ludovico, o professor que fazia vídeos sobre a língua portuguesa no YouTube, quem o governo chamara. Não era um cientista, nem um diplomata, mas um homem que entendia a música das palavras. E, de alguma forma, isso bastara.

              Naquela noite fatídica, enquanto a cidade prendia a respiração, Zenão enfrentara a esfera. Não sabia descrevê-la: era como um vazio que pulsava, uma sombra que parecia engolir a luz.    

             Dentro do carro dos serviços secretos, sentira o peso do desconhecido. Despedira-se da esposa, dos filhos pequenos, Heitor e Humberto, e da pequena Connie, a filha adotiva que batizara em homenagem à sua escritora favorita, Connie Willis. A autora de O Dia do Juízo Final, com as suas viagens no tempo e relatos crus da Peste na Idade Média, moldara a forma como Zenão via o mundo – um lugar onde o passado e o futuro dançavam num equilíbrio precário.

            Horas passara frente à esfera, tentando comunicar. Palavras, gestos, nada resultava. Até que, num impulso, ouvira um som, como um toque de piano, reminiscente da música de Hans Zimmer. Experimentou música clássica, e a esfera respondeu. Cada nota parecia uma letra, cada melodia uma frase. Zenão, com a paciência de quem decifra línguas antigas, descobriu que a esfera era uma nave, e os seus ocupantes, os Aslan, vinham de um planeta chamado Avelon. Comunicavam por música, uma linguagem universal que ele, por instinto ou destino, aprendera a traduzir. Quando a nave se abriu, Zenão entrou sem hesitar, e o que viu mudou-o para sempre. Não contava os detalhes, nem mesmo à família. Apenas dizia que os Aslan vinham em paz, e que de Avelon trouxeram segredos que impulsionaram a humanidade.

               Fora essa visita que inspirara o cientista da Universidade de Aveiro, um Nobel que, em 2029, confirmara a teoria do buraco de minhoca de Einstein. Com uma bolsa da ONU, o laboratório de Aveiro tornava-se o epicentro de um sonho: viagens no tempo. Jovens da NASA e cientistas de todo o mundo preparavam-se para serem os primeiros a atravessar o passado, estudando a História ao vivo. E, no entanto, pairava uma pergunta inquietante: e se os humanos do futuro fossem os “antigos astronautas” que moldaram o passado? Zenão, com o seu jeito enigmático, sorria quando ouvia tais teorias, mas nunca respondia.

              Agora, em 2029, parado frente à montra natalícia, Zenão parecia um homem comum, mas havia nele um mistério que atraía olhares. A sua família, os Ludovico, era tão peculiar quanto ele. Recordava as histórias do avô, já falecido, sobre um bisavô que, num reino longínquo, doara a fortuna aos pobres após a queda da monarquia, forçando a família a emigrar para Portugal. A tia-avó, porém, contava outra versão: o bisavô fugira com a filha dos caseiros, abandonando tudo por amor. As discussões entre os dois enchiam as reuniões familiares de risos e barulho. Zenão sorria ao lembrar a avó, com o seu chá das cinco, e o bisavô que, em Portugal, se dedicara a “negócios” – peças para aviões, dizia-se. “Se um avião cair, a culpa é dos Ludovico”, brincava Zenão. Casado com o amor da sua vida, Zenão tinha três filhos: Heitor, Humberto e Connie, a filha adotiva, cujo nome homenageava a escritora que o fascinava. Tinha todos os livros de Connie Willis, em inglês, castelhano e português, guardados como tesouros. Mas, apesar da sua vida familiar, havia algo em Zenão que parecia pertencer a outro tempo, a outro lugar

             .Enquanto observava a montra, um homem aproximou-se.   

         - Zenão Ludovico? O professor do YouTube? O nosso herói?   

            Zenão riu, humilde.

            - Herói, não. Fiz o que qualquer linguista faria.

           Posou para uma foto, o rosto sério, como sempre – não por aborrecimento, mas por hábito. O homem despediu-se, e o telemóvel de Zenão tocou.

           - Connie, minha filha, onde estás? Já no aeroporto? Vou já buscar-te.

            Desligou, e um sorriso raro iluminou-lhe o rosto.

              Caminhou pelas ruas do Porto, as luzes de Natal refletindo-se nos seus óculos. Ninguém sabia ao certo o que Zenão vira dentro da nave dos Aslan, nem o que aprendera em Avelon. Mas, enquanto seguia para o aeroporto, com o perfume do Natal no ar, parecia carregar um segredo maior que o próprio tempo. Quem era, afinal, Zenão Ludovico? Um professor, um linguista, um herói? Ou algo mais, algo que nem ele próprio compreendia? As ruas da cidade, envoltas em mistério, guardavam silêncio, como se soubessem que a resposta estava algures, entre o passado e o futuro.






 

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