O terceiro capitulo do meu primeiro conto de Ficção cientifica "O linguística"
Era
um sábado de manhã, e Zenão Ludovico, professor de Português e Linguística, não
planeara passar o dia na Universidade de Aveiro. O seu mestrado, centrado nas
línguas élficas e da Terra Média criadas por J.R.R. Tolkien, tornara-o um
especialista em idiomas que pareciam pertencer a outros mundos. Mas ali estava,
a caminho de um encontro inesperado, com a filha Connie ao seu lado, enquanto
as ruas do Porto ainda brilhavam com o orvalho matinal.
Zenão conhecia o Dr. Bernardo Moniz, um homem que parecia saído de um
romance de Umberto Eco. Alto, barbudo, com um fato castanho, camisa branca e um
laço a condizer, Bernardo usava óculos redondos que lhe davam um ar de geek
literário. Andava sempre com uma pilha de livros debaixo do braço, o anel no
dedo anelar sugerindo um casamento, e movia-se pelos corredores da universidade
como se o tempo o perseguisse. Devia rondar os 60 anos, ou estava a caminho
disso.
Anos antes, quando Zenão era estudante em Aveiro, um episódio marcara o
seu primeiro encontro com Bernardo. Num corredor apinhado, Zenão esbarrara no
professor, derrubando os seus livros. Ao ajudá-lo a apanhá-los, reparara em
títulos de Umberto Eco, José Saramago, além de tratados de matemática e física,
muitos sobre Einstein
. —
O Nome da Rosa, de Umberto Eco? — perguntara Zenão, pegando num dos livros.
—
Conhece, meu jovem? — respondera Bernardo, num tom educado, ajustando os
óculos.
—
Sim, foi o primeiro livro que comprei com o meu primeiro subsídio — disse
Zenão, sorrindo. — A minha mãe deixou-me ficar com o dinheiro, e eu escolhi
este.
—
Muito bem. E o que achou?
— Fantástico. Gosto muito de Umberto Eco, tenho quase todos os livros
dele. Mas quem eu adoro mesmo é Connie Willis
.— Não
conheço — dissera Bernardo, com um aceno curioso. — Talvez um dia procure.
Adeus, meu jovem.
—
Chamo-me Zenão Ludovico.
—
Bernardo Moniz.Um mês depois,
Bernardo encontrara na sua secretária um exemplar de O Dia do Juízo
Final, de Connie Willis, com um cartão:
“Aqui está o melhor livro da Connie Willis. Um dia,
talvez falemos dele. Cumprimentos, Zenão Luís Heitor Ludovico.”
Sentado na sua cadeira, Bernardo abrira o livro e começara a ler,
intrigado com o jovem que parecia saber mais do que deixava transparecer.
Agora, em 2029, Zenão batia à porta entreaberta do escritório de
Bernardo.
—
Bom dia, Zenão Ludovico! Entre, entre — disse Bernardo, com um sorriso
caloroso.
Ao
ver Connie, acrescentou:
—
Agora percebo porque a sua filha se chama Connie. Por causa da Connie Willis.
—
Exatamente — respondeu Zenão, com um leve sorriso.
— Li
o livro que me deixou. Excelente. Um relato cru da Peste medieval, visto pelos
olhos de alguém do futuro. Ajudou-me nos meus estudos sobre viagens no tempo. A
Connie Willis tinha razão.
— Leu mesmo? — perguntou Zenão, admirado.
—
Claro, desde que o encontrei na minha secretária — disse Bernardo, com um
brilho nos olhos.
— Mas vamos ao que interessa. Porque o chamei?
Zenão inclinou-se, o rosto sério.
—
Diga.
— Há um ano, enviamos a nossa primeira viajante do tempo ao passado.
Perdemos o contacto com ela — explicou Bernardo, a voz tingida de preocupação.
—
Recentemente, recebemos uma mensagem. Está perdida num mosteiro de Clarissas,
em Coimbra, no século XIII.
—
Porque eu? — perguntou Zenão, a voz calma, mas os olhos vigilantes.
—
Porque você, caro Zenão, é o melhor linguista que conheço. Li os seus trabalhos,
vi os seus vídeos. Ninguém domina o português medieval como você. Queremos que
vá ter com ela, a encontre e a traga de volta.
Zenão hesitou, coçando a barba.
—
Posso pensar?
—
Tem até amanhã — respondeu Bernardo, confiante.
No
caminho para casa, o rádio tocava Take You With Me, de Luke Combs, num volume
baixo que Zenão dizia ajudar a pensar. Ia calado, o peso da decisão a crescer
no peito. Connie quebrou o silêncio:
—
Pai, sei que a minha opinião não decide, mas acho que devias ir. É uma rapariga
da minha idade, perdida, assustada, sozinha naquele tempo.
—
Tenho 50 anos, Connie. Já me bastou a aventura com os Aslan — disse Zenão,
convicto.
—
E se fosse eu, perdida no tempo, sem ajuda? — insistiu ela, os olhos fixos nos
dele. — Como te sentirias se quem me pudesse salvar recusasse por medo de
aventuras?
Zenão suspirou, olhando para a filha. — Tu és mesmo boa, Connie.
De
madrugada, após falar com a esposa, Zenão sentou-se no sofá, o telemóvel na
mão. O jardim lá fora, envolto na escuridão, parecia refletir o mistério que o
perseguia. Ligou para Bernardo Moniz.
— Eu
aceito — disse, a voz firme, mas com um tremor quase impercetível.
—
Muito obrigado, professor — respondeu Bernardo, aliviado.
—
Agradeça à minha filha, Connie Ludovico. Boa noite.
Desligou e ficou a olhar para a escuridão. Uma nova aventura o chamava,
uma que ele, o linguista que decifrara a música dos Aslan, não sabia se estava
preparado para enfrentar. Que segredos o aguardavam no século XIII? E por que
razão o passado parecia sempre chamá-lo, como se ele próprio fosse um enigma
perdido no tempo?

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