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Sexto capitulo do meu primeiro conto de Ficção cientifica "O linguística"
Zenão Ludovico acordou com
a cabeça a pulsar, envolto na escuridão de um lugar desconhecido. O céu,
cravejado de estrelas, era a única luz, sugerindo que a noite reinava. A dor
latejante na cabeça parecia um eco da desorientação descrita em O Dia do Juízo
Final, de Connie Willis, mas isto não era ficção. Estaria ele realmente a viver
o que lera nos livros? Seria o primeiro homem a viajar no tempo? Permaneceu
deitado, o coração acelerado, tentando decifrar onde — ou quando — estava.
Vozes ecoaram na penumbra, palavras estranhas que, para sua surpresa,
reconheceu como português medieval. A sua mente de linguista, treinada nas
línguas élficas de Tolkien e no português arcaico, identificou-as
imediatamente. Reunindo forças, ergueu-se e avistou figuras encapuzadas. Eram
frades franciscanos, com os seus hábitos simples. Zenão, ainda zonzo,
improvisou uma história para se proteger:
— Olá, eu sou Zenão Ludovico. Ia a
passar por esta floresta quando fui assaltado — mentiu, com cuidado, usando o
idioma medieval para soar convincente. — Ao acordar, não me lembro onde estou
nem para onde ia.
Um dos frades, de rosto gentil sob
a luz das estrelas, aproximou-se.
— Meu bom amigo, eu sou o irmão
Artur. Somos franciscanos, e tu estás nos arredores de Coimbra — disse, com uma
calma que contrastava com o caos na mente de Zenão. — Vem connosco.
— Deus seja louvado! — exclamou
Zenão, mantendo a farsa. — Ia ao mosteiro das Clarissas, ver a tal santa que
caiu do céu.
— Também seguimos para lá —
respondeu Artur, com um aceno. — Irmão Matias, traz água e comida para este
homem.
Zenão, faminto e atordoado,
aceitou um pedaço de pão seco e um gole de água, agradecendo com um murmúrio.
Passou a noite com os franciscanos numa casa abandonada, o chão frio sob o
corpo dorido. Ao amanhecer, foram expulsos por um homem rude, o dono da
propriedade. Zenão, indignado, conteve o impulso de confrontá-lo, mas os
frades, serenos, aceitaram a expulsão com paz e seguiram caminho. A humildade
deles intrigava-o, como se carregassem uma sabedoria que ele, vindo do futuro,
não compreendia.
Enquanto caminhavam, Zenão
arriscou uma pergunta, disfarçando a curiosidade:
— Estou confuso, irmão Artur. Em
que século estamos?
Artur riu, como se a pergunta
fosse efeito de um golpe.
— A pancada dos ladrões foi
forte, meu amigo. Estamos no ano do Senhor de 1303, nas terras de Portugal, sob
o reinado do Rei D. Dinis e da Rainha Santa.
“Estou no tempo certo, graças a
Deus”, pensou Zenão, aliviado, mas com a barba rala a tremer de nervosismo.
Atravessaram campos verdejantes,
onde camponeses os observavam com espanto. Cavaleiros passavam a galope, talvez
em busca de conquistas ou do mítico Santo Graal. Coimbra surgiu ao longe, com
as suas muralhas imponentes, casas de palha e terra suja espalhadas à sua
volta. O povo olhava-os com desconfiança, sussurrando sobre a “santa caída do
céu”. De repente, uma voz cortou o ar:
— Professor! Chegou
finalmente!
Zenão virou-se e viu uma jovem
clarissa, de rosto familiar, aproximar-se com um brilho de alívio nos olhos.
— Sou eu, Beatriz. Estou aqui para
benzer estas pobres gentes — disse ela, a voz tremendo de emoção.
— Como me conheces? Nunca nos
vimos — perguntou Zenão, franzindo o sobrolho, a mente alerta.
— Estava tudo planeado pelo
departamento — explicou Beatriz, baixando a voz. — Se me perdesse no tempo, o
professor Zenão Ludovico viria buscar-me. Estava escrito.
— Escrito? — repetiu ele, a
palavra ecoando como um mistério.
— Sim. A santa levada para o céu
por um cavaleiro chamado Zenão Ludovico, salvo pelos franciscanos.
Zenão olhou para os frades, que
sorriam com serenidade, e coçou a barba, inquieto. Como podia o seu nome estar
escrito num passado que ele mal começara a habitar? Antes que pudesse
responder, o som de cascos ribombou. Cavaleiros armados cercaram-nos, lanças
apontadas, gritando ordens em português medieval. Zenão, decifrando as
palavras, murmurou para Beatriz:
— Querem que a santa caída do céu vá
benzer a família real.
— Eu não sou santa, professor! —
exclamou Beatriz, indignada.
— Vai, e eu sigo-te, ou morremos
aqui os dois. São ordens do Rei D. Dinis — disse Zenão, coçando a barba, o
olhar firme mas carregado de segredos.
De repente, uma voz suave,
quase celestial, cortou a tensão:
— Parem
.Os cavaleiros baixaram as lanças e
inclinaram-se, murmurando:
— Sua Majestade, a Rainha.
Zenão ergueu os olhos e viu uma
figura que parecia irradiar luz. Era ela, a Rainha Santa Isabel, com um porte
que transcendia o tempo. Sentiu algo indizível, como se um anjo o tivesse vindo
salvar. Beatriz, ao seu lado, sussurrou:
— Quem é ela, professor?
— A Rainha Santa Isabel —
respondeu Zenão, a voz embargada por uma emoção que não explicava.
Enquanto a rainha se aproximava,
o ar parecia carregado de mistério. Quem era Zenão Ludovico naquele tempo? Um
linguista do futuro, um cavaleiro predestinado, ou algo mais, escrito nas
dobras do próprio tempo? As muralhas de Coimbra erguiam-se como testemunhas
silenciosas, e o passado, com os seus segredos, parecia sussurrar o seu nome.
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