sétimo capitulo do meu primeiro conto de Ficção cientifica "O linguística"

 

              Connie Ludovico estava na sala, o telemóvel na mão, hesitando entre escrever ou ligar ao Dr. Bernardo Moniz. Desde que o pai, Zenão, partira para o século XIII, ela passava os dias a tentar contactar o departamento de viagens no tempo da Universidade de Aveiro, mas as palavras pareciam escapar-lhe. O que mais poderia dizer? A ansiedade corroía-a, misturada com a saudade do homem que a adotara, o linguista misterioso que decifrava línguas de outros mundos. O som de uma notificação quebrou o silêncio. Era uma mensagem do Dr. Bernardo Moniz. Connie abriu-a com o coração acelerado:

Cara Dra. Connie Ludovico,

Recebemos um áudio do seu pai, vindo do passado. Creio que gostaria de o ouvir.

Atenciosamente,
Bernardo Moniz

           Com dedos trémulos, fez o download do ficheiro, colocou os fones e a voz grave de Zenão encheu-lhe os ouvidos, trazendo um alívio momentâneo, como um farol na escuridão.

 

Diário de Viagem no Tempo, Portugal, 1303Encontrei a Dra. Beatriz. Alguém a viu cair pelos caminhos do tempo e acredita que ela é uma santa. Ela reconheceu-me quando cheguei às muralhas de Coimbra, com a ajuda de uns franciscanos. Estava tudo escrito, Connie: que eu viria salvar a “santa” e a levaria de volta ao céu. Pelo menos, sei que regressarei — está registado em escrituras antigas que o departamento de viagens no tempo possui. Fomos salvos pela Rainha Santa Isabel, que nos levou em segurança para a casa de um cavaleiro chamado Egas Pacheco. Ele vive perto de Coimbra, numa aldeia que não identifico. A casa dele é confortável, com a mulher, a mãe e uns rapazes. O mais velho, vais achar piada, Connie…

 

        Connie pausou o áudio, o coração apertado. Sorriu ao perceber que o pai gravara aquele diário para ela, não para o departamento. Era como se ele estivesse ao seu lado, contando uma história com aquele tom meio sério, meio brincalhão. Voltou a ligar o áudio.

 

…pensa que sou das terras do Rei Preste João e não para de me perguntar como é o reino paradisíaco. Como sabes, Connie, o Preste João vive no Jardim do Éden, segundo as lendas. Mais tarde, nos Descobrimentos, os portugueses pensaram que o Japão era a terra dele. (Zenão riu, um som quente que atravessava os séculos.) O rapaz chama-se Egas, e não me larga com perguntas. Gosto dele. Fez-me prometer que o levo às terras do Preste João. Sou um ingrato, porque sei que nunca poderei cumprir essa promessa. Estou bem. O cavaleiro Pacheco e a sua família protegem-nos. Já me esquecia: na aldeia, há uma igreja e um padre franciscano que parece um espião da nossa rainha. Tudo cheira mal aqui, menos a casa do Pacheco, que é um alívio. Fica bem, Connie. Vou desligar.

 

             O áudio terminou, e Connie limpou as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. Ainda era novembro, mas aquele som, a voz do pai vinda de 1303, parecia um presente de Natal antecipado. Sentiu-o tão perto, e ao mesmo tempo tão distante, perdido num tempo que não lhe pertencia.

        

              Enquanto isso, em 1303, Zenão coçava a barba rala, sentado na casa de Egas Pacheco. O cavaleiro, um homem robusto de olhar gentil, tratava-o como um convidado de honra, mas os olhos do jovem Egas, o filho, brilhavam de curiosidade.

         - Conta-me mais do Preste João. - insistia o rapaz, imaginando um reino de maravilhas. Zenão sorria, mas o peso da mentira incomodava-o. Sabia que não podia revelar a verdade: que vinha de um futuro distante, de um mundo com máquinas voadoras e naves que cruzavam as estrelas. A aldeia, com as suas casas de palha e terra, exalava um cheiro acre, mas a casa do cavaleiro era um oásis de conforto. Beatriz, sentada ao canto, mantinha-se calada, ainda abalada por ser vista como uma santa. A Rainha Santa Isabel, com a sua aura quase sobrenatural, garantira-lhes proteção, mas Zenão sentia que os olhos do padre franciscano, que rondava a igreja local, os observavam com desconfiança. Seria ele um espião, como suspeitava? Ou apenas um homem do seu tempo, perplexo com estranhos que pareciam não pertencer àquele mundo? À noite, sob o céu estrelado de Coimbra, Zenão olhava para as constelações, tão iguais e tão diferentes do seu tempo. Como regressariam? As escrituras antigas, que o departamento dizia possuir, mencionavam-no como o “cavaleiro que levaria a santa ao céu”. Mas como? E porquê ele, um linguista que decifrava línguas, mas não o próprio destino? Cada pergunta parecia abrir um novo mistério, e Zenão, com a sua barba rala e o coração pesado, sentia-se mais como um enigma do que como um herói. O passado envolvia-o como uma canção antiga, e ele sabia que, algures, o futuro aguardava a sua próxima nota.

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