Quando o Luís Miguel Rocha Entrou na Minha Vida Sem Bater à Porta - A minha amizade com o escritor da New York Time Luís Miguel Rocha

 
2007 – 2009 – o começo de uma amizade
 
        1,1 – O último Papa.
             

              Lembro-me como se fosse ontem, e, no entanto, já lá vão quinze anos. Sinto ainda o cheiro a iogurte fora de validade da associação APPDA-Norte, o barulho das cadeiras a arrastar, o sol da tarde a entrar torto pela janela.
               Eu estava ali, de olhos pregados no ecrã antigo do computador, quando a notícia me bateu no peito como um murro: «O Código Da Vinci, o meu livro-talismã, aquele que eu carregava na mochila como se fosse um pedaço de mim, acabava de ser destronado… por um português.» Não respirava. Cliquei no site da FNAC com as mãos a tremer. O Último Papa. Luís Miguel Rocha. Viana do Castelo. Porto. E a sinopse: João Paulo I assassinado pelo Vaticano. Senti um arrepio subir-me pela espinha fora, daqueles que nos fazem acreditar que o mundo está prestes a mudar.
                  Naquele instante, sem o conhecer, já o amava um pouco. Porque ele tinha feito o impossível: bater o meu herói no seu próprio campo. Anos mais tarde, já amigos, ele haveria de me olhar nos olhos, voz baixa, quase um sussurro, e dizer-me:
                – O JC existiu, André. Encontrei-me com ele em 2007. Morreu pouco depois, na villa dele, na Toscânia. Deixou-me tudo. Tudo.
               Mas nessa tarde de 2006 eu ainda não sabia disso. Só sabia que precisava daquele livro como quem precisa de ar. Tinha medo, confesso. O Codex 632 deixara-me uma ferida aberta: prometeram-me um novo Código Da Vinci e entregaram-me um vazio. Acabei por o deixar na caixa das doações da associação com um nó na garganta – era como abandonar um sonho que já não acreditava em mim. Por isso hesitei. Mas as fotografias do Luís Miguel na internet não me largavam. Aquele olhar direto, aquele sorriso que parecia pedir licença para entrar no mundo. Eu olhava para ele e perguntava-me, em silêncio: quem és tu, rapaz do Norte, que ousaste sonhar tão alto? Um dia cheguei a casa a correr, o coração na boca:
                – Mãe, posso comprar o livro do Luís Miguel Rocha? Por favor.
                   Ela sorriu, como quem já sabia tudo.
                 – Claro, filho.
                 No sábado.O sábado chegou como chegam os dias que mudam uma vida inteira. Entrámos na FNAC do Norteshopping e eu disparei, literalmente disparei, pela entrada. Procurei na mesa das novidades, nas prateleiras, no chão, em todo o lado. Nada. O meu peito apertou-se tanto que quase doía.
               – Não pode ser…
              A minha mãe foi ter com a funcionária. Eu mostrava a capa no telemóvel como quem mostra uma fotografia de alguém que já morreu.  A senhora desapareceu, voltou com cara de quem tinha sido obrigada a mexer em caixotes, e estendeu-me o livro como se fosse um objeto amaldiçoado:
               – É este?
                Peguei nele com as duas mãos, como quem recebe um recém-nascido. Senti o peso, o cheiro da tinta fresca, a capa ainda áspera. E, sem dar por mim, os olhos encheram-se-me de lágrimas. Não esperei pelo carro. Abri logo ali, encostado a uma coluna, e devorei as primeiras páginas. Li no caminho para casa, li deitado na cama, li escondido debaixo da mesa da sala para o Herculano não mo tirar.          
             Quando cheguei ao fim, o coração ainda acelerado, deparei-me com uma frase que mudou tudo:«
               Se tiver dúvidas, contacte o escritor.
               Olhei para o Herculano, que que estava com o resto do grupo na mesa e declarei em voz alta, cheio de uma certeza que nem eu sabia que tinha:
               – Vou escrever ao Luís Miguel Rocha.
                 E escrevi.
               E foi assim que começou a amizade mais bonita da minha vida.

 

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