Quando o Luís Miguel Rocha Entrou na Minha Vida Sem Bater à Porta - começava a amizade que me salvaria a alma.

 1.2 – O Começo da Amizade

Que o Herculano, ou o Sr. Carneiro, me perdoem ao lerem estas linhas, mas o meu melhor amigo, antes de o Hugo entrar na minha vida como um furacão de luz, foi o Luís Miguel Rocha. Ele foi mesmo o meu melhor amigo – aquele que me ergueu quando eu estava perdido no escuro, que me ensinou a acreditar nas palavras que eu teclava com tanto medo, que apostou em mim quando ninguém mais o fazia. Foi graças a ele que tomei a decisão mais importante da minha vida, aquela que mudou tudo para sempre.Mas, nessa altura, eu ainda não o conhecia. Só sabia dele pelas notícias no Sapo.pt – umas faziam-me sorrir, outras apertavam-me o peito com inveja boa. Mesmo assim, sentei-me ao computador, com o Herculano ao lado a ditar-me as palavras para não errar, e escrevi aquela mensagem no meu velho e-mail Sapo. As mãos tremiam-me como se estivesse a confessar um segredo ao mundo.Caro Luís Miguel Rocha,O meu nome é André Vilaça, sou um grande admirador seu e utente da APPDA-Norte. O meu hobby é escrever a tempo inteiro e, em breve, vai sair o meu primeiro livro. Estou a começar a ler o seu O Último Papa e, página após página, sinto que estou dentro de um filme – é tão vivo, tão real. Li também que Hollywood o vai adaptar para cinema; oxalá aconteça, porque o livro merece o mundo inteiro a vê-lo.O que eu mais gosto de escrever são aventuras à procura da Arca da Aliança nos nossos dias, com o Vaticano no centro de um segredo terrível.Temos algo em comum: eu também sou do Porto, mais precisamente da Foz do Douro.Não o quero roubar mais tempo. Espero, do fundo do coração, uma resposta sua.O seu novo admirador,André VilaçaEnviei e fiquei ali, olhos fixos no ecrã, como se a vida inteira dependesse daquela caixa de entrada. Nunca tinha estado tão ansioso por uma resposta desde o e-mail que mandei ao Rui Veloso. Passou o dia todo – nada. Nem um sinal. Para me distrair, mergulhei no grupo D, mas era como nadar contra a corrente: eu perdia-me em animes como Naruto ou Death Note, mundos cheios de sombras e heróis imperfeitos, enquanto eles se encantavam com novelas mexicanas para miúdos, Florebela ou Chiquititas. Sentia-me um estranho no meu próprio espaço, sobrevivendo na APPDA-Norte como quem espera por um milagre.Pelo menos tinha o meu projeto: o meu primeiro livro, Contos Soltos, estava a tomar forma, e tudo corria bem – melhor do que eu merecia.Cheguei a casa ao fim do dia, coração ainda acelerado, liguei o computador e abri o Sapo Mail. E lá estava: uma mensagem nova. Do Luís Miguel Rocha.Abri-a com as mãos a tremer tanto que mal clicava. Li, reli, e senti lágrimas quentes a subirem-me aos olhos:Meu caro André,Agradeço as suas palavras generosas.Fico muito contente por conhecer um portuense que também escreve. Como se vai chamar o seu livro? Quando sai?Sempre ao dispor. Um abraço,Luís REra só a segunda vez na vida que alguém que eu admirava tanto me respondia – a primeira fora o Rui Veloso. Corri a contar ao Herculano, que sorriu como se já soubesse o final feliz.– Agora convida-o para o lançamento do teu livro, a 3 de Dezembro de 2007! – disse ele, cheio de certeza.Achei genial, mas o medo veio logo atrás: e se fosse chato? Toda a gente diz que não sou, mas eu sinto-me sempre a mais, como se as minhas palavras pesassem demais nos outros. No dia seguinte, o Herculano percebeu o meu silêncio, sentou-me à força diante do computador e ordenou, com aquela voz firme que não admitia não:– Escreve o convite, André. Não sejas teimoso.Respirei fundo e teclei, coração na garganta:Olá Luís Mário Rocha,Queria convidá-lo para vir no dia 3 de Dezembro, às 21 horas, à FNAC do GaiaShopping.Era muito importante para mim, seu admirador da sua obra, que aparecesse.Do seu admirador,André VilaçaEnviei e saí com o Herculano e o grupo. Quando voltámos, no intervalo, corri ao e-mail. E lá estava outra mensagem dele. Abri-a quase sem respirar:Meu caro André,Conte comigo. Lá estarei.Um abraço e parabéns,Luís RochaP.S. – Sou Luís Miguel, não Luís Mário.Naquele instante, o mundo parou. Ia conhecer o Luís Miguel Rocha. Há dias, o Rui Veloso prometera encontrar-se comigo logo após o lançamento. Agora isto. Era demais – felicidade tão grande que quase doía.O meu primeiro grande sonho era simples: que ele autografasse o meu exemplar d’O Último Papa.E assim, sem eu saber, começava a amizade que me salvaria a alma.

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